Montes e aldeias no nordeste algarvio

Typology: 
Proceedings
Volume title: 
Lugares de aqui: Actas do seminário "Terrenos portugueses"
Locality: 
Lisboa
Publisher: 
Dom Quixote
Year: 
1991
Pages: 
103-117
Synopsis: 

[Resumo extraído da fonte]

Ao abordar o Nordeste Algarvio a partir de mapas de Portugal, sejam eles de estradas, de explorações agrícolas ou de povoamento, tem-se a sensação de se tratar de um deserto, um ermo, um lugar onde nada se passa, um vazio sem interesse. O mesmo acontece se a abordagem for feita a partir de pesquisa bibliográfica: a literatura dedicada à região é escassa (Guerreiro 1951, Cavaco 1976, Correia 1984) e sublinha os temas de depressão, despovoamento, declínio, contrastando com o contíguo Baixo Algarve onde imperam o rápido desenvolvimento, crescimento, densidade de população.

E todavia o espaço existe. Vazio ou não, está lá; talvez mesmo algo se passe. Na verdade, uma busca mais minuciosa às fontes revela que algo se passa mesmo. Arqueólogos e linguistas relatam as suas viagens de campo a esse mundo escassamente mapeado, e fontes mais antigas revelam que a área foi visitada, conhecida e recenseada no passado. As memórias corográficas do século XIX dedicadas ao Algarve (Lopes 1841, Bonnet 1850) referem a região com detalhe e os dicionários geográficos gerais (Leal 1873-90) contêm diversas entradas relativas a lugares habitados e activos naquele espaço. O manuscrito renascentista de Frei João de São José agora editado (Guerreiro e Magalhães 1983) igualmente refere a vitalidade da área. As Viagens em Portugal, de Link (1801), contêm passagens na secção leste da Serra Algarvia; todavia, as suas referências são breves e escassas, desapaixonadas, contrastando com o vívido retrato que este botânico traçara para a mais ocidental Serra de Monchique.

Contrapondo estas fontes de informação, pensa-se que a população da Serra terá variado ao longo do tempo, e que o relativamente povoado terreno descrito no século dezanove teria dado lugar ao despovoamento e vazio contemporâneo. A invisibilidade desta área nos documentos contemporâneos poderia ser explicada pelo seu despovoamento. A verificar-se esta afirmação, não valeria a pena pensar no Nordeste Algarvio enquanto terreno etnográfico.

Todavia, há duas ordens de elementos que levam a questionar essa afirmação. A primeira é constituída pelos relatos esparsos daqueles que fisicamente visitaram o terreno e narram contactos com a população. A segunda vem da contextualização histórica e cultural do discurso dominante sobre o Nordeste Algarvio, que maioritariamente vem do muito habitado e em notável crescimento Baixo Algarve contemporâneo. A primeira convida à exploração empírica do terreno; a segunda sugere a relativização de toda a informação e teses sobre o mesmo.

O presente artigo usa ambas as estratégias para qualificar o Nordeste Algarvio como terreno etnográfico. Contrastando a informação disponível com a observação empírica constituem-se provisoriamente paradoxos e contradições que sintetizam a diversidade de aproximações a esta região. No elucidar destas contradições se constrói o conhecimento deste terreno. Assim, o que se verá ao longo deste artigo não é a recolha do folclore de uma sociedade-em-vias-de-extinção, mas a integração de uma sociedade ideologicamente marginalizada no contexto mais vasto que gera a sua própria marginalização. Os problemas particulares deste terreno — nomeadamente os movimentos de população — serão vistos articuladamente, e como parte de, problemas mais gerais de alcance nacional e internacional.

Language: 
Last modified: 
06/10/2021 - 22:02