De Miranda a Bragança: arquitectura religiosa de função paroquial na época moderna

Tipologia: 
Tese
Universidade: 
Universidade do Porto
Ano de finalização: 
2001
Páginas: 
3 vols.
Sinopse do conteúdo: 

[Resumen extraído de la fuente original]

Uma conjuntura interna favorável e uma persistente acção diplomática permitiram que D. João III obtivesse a anuência da Santa Sé (1545) para a criação da diocese de Miranda do Douro. Territórios pertencentes à jurisdição dos arcebispos de Braga seriam agregados à nova circunscrição eclesiástica. A sede da nova diocese implantava-se na região fronteiriça do nordeste transmontano, caracterizada, entre outros aspectos, pela ocorrência de núcleos populacionais de pequena dimensão. Por sua vez, o trabalho da terra e a criação de gado, enquanto actividades económicas principais, disponibilizavam a maior parte dos rendimentos que garantiam o sustento dos moradores.

O estatuto de sede episcopal implicou a edificação a fundamentis de uma igreja catedral. Numa fase inicial, a sua construção reflectiu as debilidades da economia regional, a posição periférica relativamente aos principais centros urbanos e, no plano artístico, o confronto e hesitações entre as orientações decalcadas de práticas medievais e as fórmulas inovadoras que se filiavam no movimento cultural que, com berço na Itália, mostrava grande interesse pela revitalização do legado greco-romano. Mas a lentidão dos trabalhos permitiu que a obra fosse tocada pela crescente influência de uma estética que fazia da severidade de linhas, dos planos lisos e da desornamentação o essencial do seu programa.

Com a aplicação das orientações tridentinas, as capelas maiores, transformaram-se em espaços de centralização da espiritualidade enquanto o culto tendia a associar-se a um cerimonial mais complexo e aparatoso. A par com as encomendas de máquinas retabulares recamadas de ouro e de pintura para a colocação das devoções, também se convocavam os ofícios relacionados com a execução de alfaias e paramentos, cada vez mais ricos e exuberantes. Ao mesmo tempo, acentuava-se a importância do espaço. Todavia, na Sé de Miranda do Douro, só em meados do século XVIII se reuniram as condições para se poder ampliar a área da cabeceira. Pouco tempo depois, em resultado de um acidente no paiol da guarnição militar e da invasão castelhana, a cidade seria parcialmente destruída e a sede diocesana transferida para Bragança.

Entre as disposições aprovadas em Trento contavam-se as que impunham aos bispos a obrigatoriedade de permanecerem nas respectivas dioceses e ainda o reconhecimento da importância da formação dos clérigos. Neste sentido, foi dado relevo ao edifício que se construiu em Miranda do Douro para residência episcopal, o qual também compreendia uma área funcional para os aposentos e salas de aula dos seminaristas.

As igrejas com funções paroquiais estavam longe de ostentarem a monumentalidade apresentada pela catedral, verificando-se mesmo a ocorrência de construções religiosas que além de, interior e exteriormente, mostrarem grande pobreza ornamental eram de pequena dimensão e, por isso, insuficientes para acolherem a totalidade dos fiéis. A estes competia em regra o pagamento das obras realizadas no corpo da igreja. Já as intervenções nas cabeceiras, com frequência, respeitavam a privilegiados, eclesiásticos ou não, em resultado de direitos que lhes tinham sido concedidos e que se relacionavam com a participação nos rendimentos da igreja.

Estudou-se a importância das planimetrias, constatando-se a preferência que, de forma avassaladora, se concedeu aos formatos rectangulares, geralmente estruturados numa única nave. Contudo, não se descurou o estudo das igrejas que apresentam uma organização do espaço com duas ou três naves. Dando-se atenção aos elementos do plano da construção, atentou-se de modo particular na importância e no forte simbolismo dos portais que solenizam os frontispícios dos templos. Destes, delinear-se-ia uma tipologia que também englobava os poucos casos de fachadas cegas, caracterizadas pela ausência de vãos de entrada nos paramentos principais.

Em todo o caso, seriam os portais principais a condensarem a quase totalidade do investimento decorativo exterior. Independentemente da qualidade formal dos reportórios arquitectónico e decorativo, essa prática não abrangia nem os paramentos exteriores nem as aberturas de iluminação. Porém, no interior, a talha conjugada com a pintura de caixotões ou de perspectiva - o recurso a revestimentos azulejares é esporádico - assinala um vivo contraste com a desornamentação das superfícies parietais.

Servindo para alçar sinos, as torres e campanários configuram-se como estruturas marcantes e de grande influência na modelação volumétrica das igrejas paroquiais. No nosso país, a catedral de Miranda assinala o regresso das duas torres às fachadas. No entanto, na diocese são os campanários que, ao definirem uma vontade ascencional e sentido místico, tendem a contrariar o cunho longitudinal da maioria das construções sacras. O ensaio da seriação tipológica destes elementos determinou a análise de soluções que os complementavam como foram as modalidades de acesso aos sinos.

Relativamente à construção, evidenciaram-se aspectos de natureza técnica e jurídica, os quais foram matéria de um desenvolvimento analítico de processos relacionados com a arrematação de obras. Tais formalidades, ao reportarem-se aos ofícios de pedraria, madeiras, pintura e douramento, colocavam em destaque diversos níveis de interesses específicos, sendo de referir os relacionados com os materiais e com os procedimentos construtivos.

Finalmente, verificando-se nas zonas rurais o afastamento das paroquiais relativamente aos aglomerados, explicitaram-se as razões da sua mudança e anotou-se a tendência para se construírem novas igrejas matriciais na proximidade ou até no perímetro das povoações.

Notas: 

Tese de doutoramento em História da Arte.

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02/08/2019 - 14:23